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domingo, 5 de junho de 2016

Até Quando Vamos Deixar Que Nos Enganem?



Libra deu propina para mulher do Cunha? Filho de FHC assinou contrato com Petrobras? 

Nosso encontro com o futuro foi adiado

O mito do encontro de alguns povos com o futuro e com o progresso, cada vez mais, não passa mesmo disto: um mito, particularmente nas democracias cleptocratas onde as oligarquias políticas corruptas são eleitas com financiamento (“investimento”) eleitoral bancado, em regra, por elites econômicas extrativistas (saqueadoras).
Eis alguns exemplos: o Grupo Libra (que tem atividades no Porto de Santos e ligações com o PMDB, com Temer e com Eduardo Cunha) teria dado R$ 600 mil em propinas para Cláudia Cruz, em 2007 (ela não soube explicar a origem do dinheiro). Consoante delação de Bené, contrato com Planalto pagou campanha de Dilma. Sobre o enriquecimento politicamente favorecido, Cerveró disse (em delação) que o filho de FHC foi beneficiado com um contrato na Petrobrás em 1999. Como afirmou Sérgio Machado, “não sobra pedra sobre pedra”.

Cunha orientou sua mulher a abrir conta secreta no exterior (na Suíça); ele mesmo autorizava os gastos em lojas de luxo em Paris, Roma, Lisboa etc. O deputado Caio Nárcio (PSDB-MG) elogiou o pai na tribuna da Câmara no momento da votação do impeachment: “Por um Brasil onde meu pai e meu avô diziam que decência e honestidade não era possibilidade, era obrigação. Por um Brasil onde os brasileiros tenham decência e honestidade”. Seu pai Nárcio Rodrigues foi preso sob suspeita de corrupção. Ele é acusado de cobrar R$ 1,5 milhão em propina quando era secretário do governo Anastasia.
A cada dia que passa as elites/oligarquias extrativistas e corruptas vão desmarcando nosso (mitológico) encontro com o futuro. As condições de vida do brasileiro estão alcançando níveis insuportáveis e isso não é fruto do acaso. Desemprego massivo (11,2% em abril/16, consoante a Pnad Contínua e IBGE) e recessão em 2015 (-3,8% no PIB), que deve se agravar este ano (conforme a OCDE), em virtude das incertezas políticas e econômicas bem como das contínuas revelações sobre corrupção “que estão minando a confiança dos consumidores e dos negócios”.
O PIB negativo deve alcançar -4,3% (em 2016) e -1,7%, em 2017 (diz a OCDE). As instituições econômicas extrativistas levam à existência de instituições políticas corruptas, que geram desconfiança, que bloqueia o investimento, que reduz o crescimento, que afunda o país. A corrupção sistêmica (tal qual a revelada pela Lava Jato) não é neutra em relação às crises, ao caos e, eventualmente, ao colapso do país.
O encontro marcado com o futuro e com o progresso é um dos mitos mais difundidos (e alimentados) nos países dominados por instituições extrativistas, criadas pelas elites econômicas e oligarquias políticas com o propósito de promover o máximo de concentração possível da riqueza com a consequente desigualdade extremada da maioria da população.
Aconteça o que acontecer, nosso futuro estaria garantido (porque somos gigantes pela própria natureza). Esse mito fundacional (M. Chauí) cumpre o papel de fonte de inspiração diária para o povo brasileiro, que assim se conforma com a ideia de que a Terra seria mesmo o “vale das lágrinas” (que sugere a existência de outra vida bem melhor que a vivida na Terra).
O mito da prosperidade futura decorre também do nosso complexo de inferioridade (dizem os psicólogos), que ativa a polaridade negativa do puer aeternus (arquétipo da criança eterna) e cria a imagem de um país eternamente jovem, cheio de riquezas e belezas tropicais. A ilusão do puer “é de que amanhã será magicamente melhor do que hoje”[1]. Dissemina-se a ideia de que a história e todas as evoluções tecnológicas do mundo um dia vão desaguar no nosso caminho. Estaríamos, portanto, “condenados” a dar certo (independentemente de alguns momentos mais difíceis).
A infantilização e a mitologia nos conduz a confiar que uma simples troca de governo já seria suficiente para se imaginar (ou para se propagar) que as instituições secularmente extrativistas e corruptas, como num passe de mágica, pudessem trocar o seu torto DNA pela retidão e honorabilidade. Editorial moralista do Estadão (1/6/16) dizia: “[Com o governo Temer] os tempos mudaram e com eles devem mudar os costumes [dos parlamentares]. Basta de toma lá dá cá”. Padre Antônio Vieira dizia a mesma coisa no século XVII.
A própria premissa da ideia (“os tempos mudaram com o governo Temer”) é bastante discutível, visto que em menos de vinte dias (desse governo que constitui “novos tempos”) dois ministros (Romero Jucá e Fabiano Silveira) foram defenestrados por tentativa de obstrução do andamento da operação Lava Jato. A exoneração apresentada por Fabiano Silveira salva o presidente interino de um desastre prolongado, mas não o afasta da percepção de que é extremamente vulnerável à transparência. A transparência não faz bem ao novo governo, que queria manter o ministro no cargo. Não há intolerância com os desvios.
Mais: a parte política do ministério Temer foi composta exclusivamente com base no “tomaladaquismo” (toma lá, dá cá), por três razões: (a) ele necessita aprovar reformas econômicas; (b) precisa compor uma base de governo no Legislativo e (c) ainda depende de 54 votos no Senado para encerrar o processo de impeachment de Dilma. O slogan do seu governo, tranquilamente, pode ser: ordem, progresso e “tomaladaquismo”.
Ao serem perguntados, alguns parlamentares (da base do governo) disseram que “não pretendem entregar de bandeja ao Planalto os votos nos quais muitos já estão colocando preço”. Para a aprovação da emenda constitucional 16/97 que permitiu a reeleição nos cargos executivos teriam sido comprados uns 50 parlamentares com propinas “de Maluf e do governo FHC” (disse o delator Pedro Corrêa). O mensalão do PT tinha um bem engendrado programa de “distribuição de renda mínima” para uns 80 parlamentares (tudo em nome da governabilidade). Sendo essa a tradição da Casa (há exceções, evidentemente), é praticamente impossível a um governo reconhecidamente financiado pelas propinas da Petrobras (que elegeram parlamentares do PMDB, PP e PT) mudar repentinamente o comportamento dos membros do Congresso Nacional.
Nos parlamentos extrativistas “as preocupações dos representantes eleitos pelos cidadãos raramente vão além do controle que pretendem manter sobre seus redutos eleitorais e seu patrimônio material” (Estadão). É hora de “colocar de lado interesses pessoais e de grupos para concentrar-se no objetivo, que deveria ser comum, de criar condições objetivas para o saneamento das contas públicas e a aprovação de medidas estruturantes que propiciem a retomada do crescimento, condição indispensável para a /garantia e ampliação dos direitos dos cidadãos e das conquistas sociais”.
“Ao idealizarmos o Brasil como nação maravilhosa, sem limites e cheia de potencial, também somos levados à ilusão do paraíso. A grande nação, mãe de todos nós. Queremos mamar eternamente em berço esplêndido. A realidade, porém, impõe-se e temos que lidar com os nossos limites. Sofremos o desmame, somos jovens, imaturos; ainda precisamos viver e crescer na dor de uma democracia a ser conquistada a duras penas. Estamos perplexos, desmamados do seio protetor da nossa mãe. Perplexidade combina com paralisia, e paralisia significa inação, incapacidade de pensar. Sintoma que se assemelha ao estresse que, quando aumenta a produção de cortisol no corpo, gera um pensamento nebuloso, incapaz de raciocinar clara e logicamente. Estamos estressados e angustiados diante da realidade. Vamos “desidealizar” o Brasil!”[2].
[1] Ver RAMOS, Denise Gimenez, Brasil no Divã, em O Estado de S. Paulo de 27/09/15, p. E4.
[2] Ver http://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2016/03/1752996-idealizacaoeilusao.shtml, consultado em 23/3/16.

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