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sábado, 25 de junho de 2016

A culpa é da Opressão, não da Imigração

A decisão dos eleitores do Reino Unido de deixar a UE é um repúdio tão gritante à sabedoria e à relevância das instituições políticas e à mídia de elite que - pela primeira vez - seus fracassos se tornaram uma parte importante da história. A reação da mídia ao voto apelidada de Brexit (British exit – saída da Bretanha) cai em duas categorias gerais:
Uma séria, fazendo tentativas espontâneas para entender o que motivou os eleitores a fazer esta escolha, mesmo que isso signifique acusar os próprios círculos do stablishment, e outra petulante, de auto-serviço, formada por ataques simplórios aos eleitores desobedientes, chamando-os de primitivos, fanáticos, xenófobos (e estúpidos), para fugir de qualquer acerto de contas com sua própria responsabilidade.
Praticamente todas as reações que se enquadram na primeira categoria enfatizam as falhas profundas das facções do stablishment ocidental; estas instituições geraram miséria difusa e desigualdade, só para vomitar desprezo condescendente em suas vítimas quando elas se opõem.

Vincent Bevins do Los Angeles Times , em uma análise excelente e concisa, escreveu que "tanto o Brexit quanto o Trumpismo são respostas muito, muito erradas a perguntas legítimas que as elites urbanas têm se recusado a fazer nos últimos trinta anos" em particular, "desde os anos 1980 as elites dos países ricos têm exagerado a mão, mantendo todos os ganhos para si e simplesmente cobrindo os ouvidos quando os trabalhadores falam. Agora elas estão assistindo com horror à revolta dos eleitores.” O jornalista britânico Tom Ewing, em uma explicação abrangente, disse que a mesma dinâmica de condução da votação no Reino Unido prevalece na Europa e na América do Norte, bem como: "a arrogância das elites neoliberais na construção de uma política destinada a deixar de lado a democracia e trabalhar em torno da mesma, deixando apenas uma democracia formal intacta."

Em entrevista ao The New Statesman, o filósofo político Michael Sandel também disse que a dinâmica que conduziu o sentimento pró-Brexit são agora dominantes em todo o Ocidente em geral: "um grande círculo eleitoral de eleitores da classe trabalhadora sente que não só a economia os deixou para trás, mas também a cultura. Suas fontes de dignidade pessoal, a dignidade do trabalho, foram erodidas e ridicularizadas pela globalização, pelo aumento das finanças, a atenção esbanjada pelos partidos de todo o espectro político às elites das áreas econômica e financeira. O excesso de  ênfase tecnocrática dos partidos políticos estabelecidos". Depois que o radicalismo de Reagan e Thatcher veneraram o mercado, ele disse: " o centro-esquerda de Blair e Clinton, assim como vários partidos europeus" conseguiu recuperar cargos políticos, mas não conseguiu reimaginar a missão e o propósito da social-democracia, que se tornou vazia e obsoleta".

Escritores do Three Guardian tocaram em temas semelhantes falando sobre a ignorância da mídia de elite, decorrente da sua homogeneidade e descolamento da cidadania. John Harris citou um eleitor de Manchester que explicava que "se você tem dinheiro, você vota para ficar na UE, se você não tem dinheiro, você vota para sair." E Harris acrescentou: "a maior parte da mídia. . . não conseguiu ver este aspecto. . . . A alienação das pessoas que deveriam documentar o humor nacional daqueles que fazem a diferença na hora do voto foi uma das rupturas que levaram a este momento.” Gary Younge denunciou “Uma seção do Commentariat com sede em Londres classificou a classe trabalhadora britânica como se fosse de uma raça menor, que evoluíiu de raças distantes, muitas vezes retratando-os como fanáticos que não sabiam o que era bom para eles. "O artigo de Ian Jack na manchete "Nesta votação do Brexit, os pobres acenderam uma elite que os havia ignorado", e descreveu como "gradualmente a visão de cidades vazias e lojas fechadas tinha se tornado normal ou esquecida. “Manchetes como esta do The Guardian em 2014 tinham sido publicadas mas foram amplamente ignoradas.

Embora tenham havido algumas exceções, as elites políticas e mediáticas no Reino Unido se uniram veementemente contra o Brexit, mas sua pseudo sabedoria decretada foi ignorada, e até mesmo desprezada. Isso aconteceu muitas vezes. Como suas falhas fundamentais tornaram-se mais evidentes para todos, essas elites perderam credibilidade, influência e sua capacidade de ditar resultados.

Apenas no ano passado, no Reino Unido, os membros do Partido dos Trabalhadores escolheram Jeremy Corbyn para liderar o partido de Tony Blair – alguém autenticamente de esquerda - que não poderia ter sido mais intensamente desprezado e ao mesmo tempo patrocinado por quase todos os líderes dos meios de comunicação e da classe política. Nos EUA, a alegre rejeição pelos eleitores de Trump à sabedoria coletiva do stablishment conservador evidenciou o mesmo desprezo pelo consenso da elite. O contra ataque entusiasta sustentado especialmente por jovens eleitores, contra a queridinha do stablishment Hillary Clinton em favor de um socialista de 74 anos de idade, que não é levado a sério por quase ninguém das elites de Washington, refletiu a mesma dinâmica. As denúncias contra as elites européias batem em ouvidos surdos. As elites não podem parar, nem mesmo afetar estes movimentos, porque eles são, no fundo, uma revolta contra a sua sabedoria, autoridade e virtude.

Em suma, a credibilidade do stablishment ocidental está morrendo, e sua influência está se corroendo rapidamente. Tudo merecidamente. O ritmo frenético da mídia on-line faz com que mesmo os eventos mais recentes pareçam distantes. Isso por sua vez faz com que seja fácil perder de vista as falhas catastróficas e devastadoras que as elites ocidentais têm produzido em um período extremamente curto de tempo.

Em 2003, as elites americanas e britânicas se uniram para defender uma das guerras agressivas mais hediondas e imorais das últimas décadas: a destruição do Iraque que acabou por ser baseada centralmente em falsidades que foram ratificadas posteriormente pelas instituições mais confiáveis, bem como uma falência política completa, mesmo em seus próprios termos, o que destruiu a confiança pública.

Em 2008, sua distorcida visão do mundo econômico e a corrupção desenfreada precipitaram uma crise econômica global que literalmente causou - e ainda está causando - sofrimentos a bilhões de pessoas. Em resposta, elas (as elites) ainda protegem os plutocratas que causaram a crise deixando as vítimas lidarem sozinhas com o desastre resultante. Mesmo agora as elites ocidentais continuam fazendo proselitismo nos mercados e impondo o livre comércio e a globalização, sem a menor preocupação com a grande desigualdade e destruição da segurança econômica que estas políticas geram.

Em 2011, a NATO bombardeou a Líbia, fingindo ser motivada por razões humanitárias, apenas para ignorar esse país uma vez que o triunfo militar foi conquistado, deixando assim um vazio de anarquia e regras militares por anos espalhando instabilidade pela região e alimentando a crise dos refugiados.
Os EUA e seus aliados europeus continuam a invadir, ocupar e bombardear países predominantemente muçulmanos, enquanto sustentam seus tiranos mais brutais, depois fingem aturdimento quando alguém os ataca de volta, limitam e abolem nossas liberdades básicas e aumentam as campanhas de bombardeio para aumentar cada vez mais o medo. A ascensão do ISIS e a posição que assumiram no Iraque e Líbia foram o direto subproduto das ações militares do Ocidente (como até mesmo Tony Blair admitiu sobre o Iraque). Sociedades ocidentais continuam a desviar recursos maciços em armamento militar e prisões para os seus cidadãos, enriquecendo as facções mais poderosas no processo, enquanto ao mesmo tempo impõem duras austeridades sobre as massas que já sofrem. Em suma, as elites ocidentais prosperam enquanto toda a gente perde as esperanças.

Estes não são fatos aleatórios ou erros isolados. Eles são o subproduto de patologias culturais fundamentais dentro dos círculos das elite ocidentais - uma podridão profunda. Por que as instituições que têm repetidamente usado o engano, e espalhado tal miséria, continuam a impor respeito e credibilidade? Elas não deveriam, e eles não têm. Como Chris Hayes advertiu em seu livro O Crepúsculo das Elites de 2012, "dado o alcance e a profundidade dessa desconfiança [nas instituições de elite], é claro que estamos no meio de algo muito maior e mais perigoso do que apenas uma crise de governo ou do capitalismo. Estamos no meio de uma crise ampla e devastadora de autoridade".

É natural - e inevitável - que figuras malignas tentem explorar esse vácuo de autoridade. Todos os tipos de demagogos e extremistas tentarão redirecionar a raiva da massa para seus próprios fins. Revoltas contra instituições corruptas das elites podem resultar em reforma e progresso, mas também podem criar espaço para os mais terríveis impulsos tribais: a xenofobia, o autoritarismo, o racismo, o fascismo. Estamos vendo tudo isso manifestando-se nos movimentos anti-stablishment nos EUA, na Europa no Reino Unido e no Brasil. Tudo isso pode ser revigorante, prometedor, desestabilizador, ou perigoso: provavelmente uma combinação de tudo isso.

A solução não é agarrar-se subservientemente a instituições da elite corrupta por medo das alternativas. É preciso em vez disso, ajudar a enterrar as instituições e os seus especialistas e depois lutar por substituições superiores. Como Hayes colocou em seu livro, o desafio é "dirigir a frustração, a raiva e a alienação que todos nós sentimos para construir uma coalizão trans-ideológica que pode realmente desalojar o poder da elite pós-meritocrática. Uma que empacota sentimento insurreicionista sem sucumbir ao niilismo, ou à maníaca, paranóica desconfiança".

As elites corruptas sempre tentaram convencer as pessoas a continuarem a se submeter ao seu domínio em troca de proteção contra forças ainda piores. Esse é o seu jogo. Mas em algum momento, eles mesmos, e sua ordem vigente, tornou-se tão destrutiva, tão enganosa, tão tóxica, que suas vítimas estão dispostas a apostar que as alternativas não serão piores, ou pelo menos, decidiram abraçar a satisfação de cuspir nos rostos daqueles que têm exibido nada além de desprezo e condescendência para com eles.

Não há uma explicação unificadora para o Brexit ou Trumpismo, ou o crescente extremismo de várias linhas no Ocidente inteiro, mas essa sensação de impotência misturada com raiva, essa incapacidade de ver qualquer opção alternativa ao esmagamento dos responsáveis ​​por sua situação - é, sem dúvida, um importante fator. Como Bevins escreveu, os apoiadores de Trump, e do Brexit, além de outros movimentos anti-stablishment "não são motivados tanto pela crença de que seus projetos vão realmente funcionar, mas mais pelo desejo de dizer foda-se" àqueles que falharam.
Obviamente, aqueles que são o alvo desta raiva anti-stablishment – os políticos, as elites econômicas e a mídia - estão desesperados para exonerar-se, para demonstrar que não têm responsabilidade pelos sofrimentos das massas que agora estão se recusando a serem complacentes e silenciosas. A maneira mais fácil para alcançar esse objetivo é simplesmente demonizar aqueles com pouco poder, riqueza ou possibilidade como pessoas estúpidas e racistas: isso só estaria acontecendo simplesmente porque eles seria primitivos, ignorantes e odiosos, não porque têm alguma queixa legítima ou porque as instituições de elite tenham feito algo de errado. Como o Michael Tracey disse:

Essa reação é tão auto-protetiva e auto-glorificadora que a mídia das elites dos EUA - incluindo quem não sabia quase nada sobre o Brexit até 48 horas antes - adotou instantaneamente esta como sua narrativa preferida para explicar o que aconteceu, exatamente como fizeram com Trump, Corbyn, Sanders e em todos os outros casos em que seu direito de governar foi ignorado. Eles estão tão convencidos da sua superioridade natural que quaisquer facções que se recusem a vê-los como tais e exijam que apresentem provas, são considerados por definição regressivos, atrofiados e amorais.

De fato, a reação da mídia ao plebiscito Brexit – plena de irrefletida raiva, condescendência e desprezo para com aqueles que votaram errado - ilustra perfeitamente a dinâmica que causou tudo isso em primeiro lugar. A mídia das elites, em virtude de sua posição, adoram o status quo. São ecompensados com prestígio e posição, são recebidos nos círculos mais exclusivos, as elites lhes permitem estar perto (se não estiverem eles próprios empunhando) do grande poder durante suas viagens pelo país e o mundo, proporciona-lhes uma plataforma, os enche com estima e propósitos. O mesmo é verdade para as elites acadêmicas, financeiras e políticas. Elites amam o status quo que lhes foi concedido e por isso protegem suas posições.

Dependendo de quanto estão satisfeitos com sua sorte, elas consideram com afeto e respeito as instituições internacionais que protejam a ordem dominante do Ocidente tais como o Banco Mundial, o FMI, a NATO, as forças militares americanas, a Federal Reserve, Wall Streep e a UE. Enquanto eles expressam algumas críticas parciais sobre cada uma, eles literalmente não conseguem compreender como é que alguém seria fundamentalmente desiludido e irritado com essas instituições, e muito menos que queiram romper com elas. Elas estão muito longe do sofrimento que alimenta esses sentimentos anti-stablishment. Então, pesquisam e procuram em vão por alguma lógica que poderia explicar algo como o Brexit, ou os movimentos que condenam o stablishment seja de direita que de esquerda, e pode encontrar apenas uma maneira de processá-lo: essas pessoas não são motivadas por quaisquer queixas legítimas ou porque estejam sofrendo por razões econômicas, pensam que sejam ingratas, imorais, movidas pelo ódio, que sejam racistas e ignorantes.

Outro fator importante é que o mecanismo usado pelos cidadãos ocidentais para expressar e corrigir sua insatisfação – as eleições - em grande parte deixou de servir a qualquer função de correção. Como Hayes, em um tweet amplamente citado, escreveu esta semana sobre o Brexit:

Isto é exatamente a escolha apresentada não só pelo Brexit mas também nas eleições ocidentais em geral, incluindo as de 2016 em que vemos a Clinton contra o Trump. (Basta olhar para a poderosa gama de magnatas de Wall Street e neocons amantes da guerra que viram na ex senadora de New York e secretária de Estado sua melhor esperança para que mantenham sua agenda e seus interesses servidos). Quando a democracia é preservada apenas na forma, estruturada para mudar pouco ou nada sobre a distribuição do poder, as pessoas procuram naturalmente alternativas para a reparação de suas queixas, especialmente quando elas sofrem demais.

Mais importante ainda - e diametralmente oposto ao que os liberais do stablishment gostam de reclamar, a fim de demonizar todos os que rejeitam a sua autoridade - o sofrimento econômico e xenofobia / racismo não são mutuamente exclusivas; o oposto é verdadeiro: os primeiros alimentam o segundo. A miséria econômica sustentada faz com que as pessoas aceitem melhor cabras expiatórias. É precisamente por isso que políticas plutocráticas que privam enormes parcelas da população de oportunidades básicas e esperanças são tão perigosas. Alegando que os apoiadores do Brexit, Trump, Corbyn, Sanders ou do anti-stablishment são motivados apenas pelo ódio, não por um genuíno sofrimento econômico e pela opressão política de que são vítimas, é uma tática transparente para exonerar as instituições do status quo e evadir sua responsabilidade de fazer qualquer coisa sobre seu núcleo de corrupção.

Parte dessa reação da mídia rancorosa para com o Brexit é baseada em uma combinação sombria da preguiça e do hábito: uma parcela considerável do stablishment liberal no ocidente perdeu completamente sua capacidade de se envolver com qualquer tipo de dissidência às suas ortodoxias, ou mesmo de compreender aqueles que discordam dela. Eles não são capazes de nada mais além de adotar a postura mais presunçosa e auto-complacente, de vomitar clichês para etiquetar seus críticos como ignorantes e fanáticos. Como as pessoas do ocidente que bombardeiam países muçulmanos e então expressam confusão quando suas vítimas querem atacá-los de volta, os mais simplórios destes meios de comunicação ficam constantemente enfurecidos porque as pessoas que eles interminavelmente difamam como ignorantes se recusem a investí-los com o respeito e a credibilidade a que crêem terem naturalmente direito.

Mas há algo mais profundo e mais interessante dirigindo a reação da mídia ocidental. Os jornalistas não são independentes. Eles estão totalmente integrados nas instituições das elites, são ferramentas dessas instituições e se identificam completamente com elas. É claro que eles não compartilham, e não conseguem entender os sentimentos anti-stablishment: eles são os alvos dessa revolta que odeia o stablishment, tanto quanto qualquer outra pessoa. Esta reação dos jornalistas a este movimento anti-stablishment é uma forma de auto-defesa. Como o Professor Jay Rosen disse ontem à noite, "os jornalistas relatam a hostilidade à classe política, como se não tivessem nada a ver com isso", mas eles são uma parte fundamental dessa classe política e, por essa razão", se a população, ou parte dela, está em revolta contra a classe política, este é um problema para o jornalismo ".
Há muitos fatores que explicam porque os jornalistas agora não têm quase nenhuma capacidade de conter a onda de raiva anti-stablishment, mesmo quando é irracional e motivada por impulsos ignóbeis.
Parte do problema é que a internet e as mídias sociais tornaram as mídias tradicionais irrelevantes, desnecessárias para disseminar idéias. Parte do problema é que - devido a sua distância da população - eles não têm nada a dizer para as pessoas que sofrem e que estão furiosas além de desprezá-las  como perdedoras e odiosas. Parte do problema é que os jornalistas - como qualquer outra pessoa - tendem a reagir com amargura e raiva, não com uma atitude de auto-avaliação, quando perdem influência e estatura.

Mas um fator importante é que muitas pessoas reconhecem nos jornalistas uma parte integrante das instituições e dos círculos de elites corrompidos, autores de sua situação. Ao invés de serem pessoas que negociam ou informam sobre esses conflitos políticos, os jornalistas são agentes das forças que os oprimem. E quando os jornalistas reagem à sua raiva e sofrimento, dizendo-lhes que suas razões não são válidas e que são apenas o subproduto de sua estupidez e ressentimentos primitivos, isso só reforça a percepção de que os jornalistas são seus inimigos, tornando assim a opinião jornalística cada vez mais irrelevante.

O Brexit - apesar de todo o mal que é susceptível de causar e apesar de todos os políticos mal-intencionados que irão se eleger – pode ser um acontecimento positivo. Mas isso exigiria que as elites (e seus meios de comunicação) reagissem ao choque deste repúdio e passassem algum tempo refletindo sobre suas próprias falhas, que analisassem o que têm feito para contribuir para tal indignação em massa, a fim de envolver-se na correção de suas políticas. Exatamente o mesmo benefício potencial foi gerado pelo fracasso no Iraque, pela crise financeira de 2008, pelo aumento de Trumpismo e outros movimentos anti-stablishment: tudo isso é uma prova de que as coisas estão indo muito mal para aqueles que detêm o maior poder e que a auto crítica nos círculos das elites é mais vital do que qualquer coisa.

Mas, como de costume, isso é exatamente o que eles mais se recusam a fazer. Em vez de reconhecer e abordar as falhas fundamentais dentro de si mesmos, eles estão dedicando suas energias a demonizar as vítimas de sua corrupção, tudo a fim de deslegitimar essas queixas e assim aliviar-se da responsabilidade de encontrar uma solução. Essa reação só serve para reforçar, se não justificar, as percepções de que estas instituições de elite estejam irremediavelmente auto-interessadas, tóxicas e destrutivas e portanto, não podem ser reformadas, mas sim devem ser destruídas. Isso, por sua vez, só garante que haverão muitos mais Brexits e Trumps, em nosso futuro coletivo.
Artigo original

segunda-feira, 20 de junho de 2016

A crise como instrumento de dominação


Seria a crise onipresente a forma de expressão de todo um sistema de dominação, dirigido a nossa vida cotidiana?

O conceito de “crise” de fato tem se tornado o mote da política moderna e tem sido por muito tempo parte da normalidade em qualquer segmento da vida social. A palavra expressa duas raízes semânticas: a médica, que se refere ao curso de uma doença, e a teológica, que remete ao Juízo Final. Ambos significados, no entanto, sofreram uma transformação hoje, que os desprovê de sua relação com o tempo. “Crise” na medicina antiga remetia a um julgamento, ao momento decisivo em que o médico percebia se o doente sobreviveria ou não. A concepção atual de crise, por outro lado, se refere a um estado duradouro. Assim, essa incerteza é estendida ao futuro, ao infinito. É exatamente o mesmo com o sentido teológico: o Juízo Final era inseparável do fim dos tempos. Hoje, no entanto, o juízo é divorciado da ideia de resolução e repetidamente adiado. Então o prospecto de uma decisão é cada vez menor, e um processo interminável de decisão jamais se conclui.

Isso significa que a crise da dívida, das finanças públicas, monetária, da União Europeia… é interminável?

A crise atual tornou-se um instrumento de dominação. Ela serve para legitimar decisões políticas e econômicas que de fato desapropriam cidadãos e os desproveem de qualquer possibilidade de decisão. Na Itália isso é muito claro. Aqui um governo foi formado em nome da crise e Berlusconi voltou ao poder apesar de basicamente contrariar a vontade do eleitorado. Esse governo é tão ilegítimo quanto a dita constituição europeia. Os cidadãos da Europa devem ter claro que esta crise interminável – assim como um estado de emergência – é incompatível com a democracia.

Que perspectivas restam para a Europa?

Em primeiro lugar, devemos restaurar o significado original da palavra “crise”, como um momento de julgamento e de escolha. Para a Europa, não podemos adiá-la ao futuro indefinido. Muitos anos atrás, um alto oficial da então incipiente Europa, o filósofo Alexandre Kojève, assumiu que o homo sapiens havia chegado ao fim da história e que só restavam duas possibilidades: o american way of life (que Kojève via como uma vegetação pós-histórica), ou o esnobismo japonês, a simples celebração dos rituais vazios da tradição agora furtados de qualquer sentido histórico. Acredito que a Europa poderia, no entanto, realizar a alternativa de uma cultura que permanece ao mesmo tempo humana e vital, porque continua em diálogo com sua própria história e portanto adquire nova vida.

A Europa, compreendida como cultura e não apenas como espaço econômico, poderia portanto fornecer uma resposta à crise?

Por mais de duzentos anos, as energias humanas vêm sendo focadas na economia. Muito indica que o momento talvez tenha chegado para os homo sapiens organizarem a ação humana para além desta única dimensão. A velha Europa pode justamente fazer uma contribuição decisiva ao futuro aqui.
Leia o artigo completo aqui


terça-feira, 14 de junho de 2016

Pornochanchada no MEC


O ministro interino da Educação, Mendonça Filho, paralisou as negociações de implementação da Base Nacional Curricular Comum, documento que vai determinar conteúdos mínimos que os alunos das 190 mil escolas do Brasil terão de aprender em cada etapa da educação básica. A informação, divulgada na coluna Radar Online, assinada pela jornalista Vera Magalhães, representa a primeira vitória do ator Alexandre Frota e do movimento Revoltados Online junto à gestão de Michel Temer.

Isso porque nas primeiras semanas de governo, Mendonça Filho abriu as portas do gabinete para Alexandre Frota (procurar por Alexandre Frota Porno no Google Imagens) e o Revoltados Online criticarem o documento da Base Nacional Curricular Comum. "Não vejo problema", disse Mendonça na ocasião, ao ser criticado pela companhia. No encontro, Frota também apresentou para Mendonça Filho o projeto Escola Sem Partido, que propõe que o professor não se manifeste politicamente em sala de aula.

Com a paralisação das negociações da BNCC, Mendonça adere à proposta do movimento Escola Sem Partido e diz querer "desideologizar" o debate e rever alguns conceitos que estavam norteando os trabalhos. Segundo a coluna Radar, as principais críticas do novo governo à metodologia que seria adotada na Base Nacional Curricular Comum recaem sobre o ensino de história, língua portuguesa e matemática.

O Escola Sem Partido é alvo de críticas dos principais educadores do País. As alegações são de que o projeto representa um cerceamento ao direito do exercício do livre magistério. Além de ferir preceitos constitucionais da educação e da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), o Escola Sem Partido é considerado um atraso nos avanços sobre discussões de diversidade e direitos das minorias nas escolas.

No inicio do mês, um conjunto de especialistas em educação lançou manifesto em defesa da BNCC. Também se posicionaram contra os recentes retrocessos do Escola Sem Partido. O documento foi assinado por 116 representantes de universidades, do Conselho Nacional de Educação e da União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime).

Ao dizer que deve convocar entidades como o Impa (Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada) e a ABL (Academia Brasileira de Letras) para participar das novas discussões sobre o currículo nacional, Mendonça Filho voltou a demonstrar desconhecimento sobre os assuntos do da pasta que dirige. Essas entidades já participaram das discussões sobre a BNCC.

No início de maio, o então ministro da Educação, Aloizio Mercadante, entregou a segunda versão da Base Nacional Curricular Comum ao Conselho Nacional de Educação. A versão entregue por Mercadante passou por ampla mobilização e participação social. Para elaboração do documento, a comissão responsável pela BNCC recebeu mais de 12 milhões de contribuições na internet, contou com mais de 700 reuniões de discussão e com a participação de 200 mil professores e 45 mil escolas.

A proposta apresentada foi de que a segunda versão fosse discutida em seminários com a participação de professores, alunos e especialistas em todos os estados brasileiros. O prazo final para apresentação de uma versão final seria o dia 24 de junho.

Mendonça já havia demonstrado desconhecimento sobre os temas da educação ao tratar dos recursos e da segurança Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). O ex-ministro, Aloizio Mercadante, divulgou nota questionando a capacidade de gestão dos atuais dirigentes do MEC e o desmonte realizado nas equipes técnicas de logística e de tecnologia da informação do Inep, órgão responsável pela realização do exame. Mercadante também demonstrou preocupação com realização do Enem com a continuidade da gestão da educação do governo provisório e interino.

A luta continua


Philippe Martinez, o líder da CGT, o principal sindicato da França, queria desmentir na rua aqueles que predizem um declínio da pressão social contra a reforma trabalhista. A mobilização, que começou há três meses, culminou na terça-feira com a primeira demonstração de nível nacional em Paris, em plena Eurocopa. Participaram cerca de 80.000 pessoas, segundo a polícia (um milhão, segundo os organizadores) e houve confrontos com policiais, pelos quais foram presas 60 pessoas e 40 ficaram feridas (incluindo 29 policiais), segundo a direção da polícia. A CGT deu, assim, uma demonstração de força em um braço de ferro com o Governo que Martinez quer levar “até o fim”, apesar de já ter consumido seus principais trunfos.

Desde o início dos protestos, em março, houve dezenas de manifestações, mas a de terça-feira foi a única que a CGT planejou para trazer à capital trabalhadores e estudantes de todo o país. Martinez disse que essa marcha em Paris foi “uma demonstração” de que a mobilização não perdeu fôlego, mas que está aumentando. Em cidades como Marselha e Toulouse também houve manifestações na terça-feira.
O percurso em Paris, de mais de cinco quilômetros entre a Place d’Italie e os Invalides, foi completamente preenchido com cortejos de diferentes seções locais e regionais dos setores industriais e de serviços. Martinez estava convencido de que seriam superados amplamente os números da manifestação de 31 de março, a maior já registrada até agora: 390.000 pessoas em todo o país (1,2 milhão, de acordo com os sindicatos, e 28.000 em Paris). Agora, os números em toda a França foram de 125.000, segundo a polícia e 1,3 milhão de acordo com os sindicatos.

As centrais sindicais tinham fretado mais de 700 ônibus para o transporte de militantes e simpatizantes, mas Martinez disse que vários empresários se recusaram a fornecer seus veículos.

Uma hora e meia depois do início da manifestação de Paris aconteceram graves incidentes e confrontos com a polícia. Dezenas de encapuzados destruíram vitrines e mobiliário urbano, viraram carros e incendiaram veículos estacionados, enquanto lançavam garrafas e outros objetos nos policiais. Alguns desordeiros destruíram quinze grandes vidraças do importante hospital Necker.

Estações de metrô próximas aos bulevares Montparnasse e Raspail foram fechadas devido aos incidentes. A polícia havia proibido 130 pessoas de participar da marcha por serem suspeitos de atos de violência em protestos recentes.

A marcha teve a participação de representantes sindicais espanhóis da UGT e das CCOO. Representando esta última central, compareceu Cristina Faciaben, responsável pela área internacional, que comentou que a reforma francesa é semelhante à da Espanha, onde “não criou empregos, mas, em todo o caso, distribuiu o trabalho com precariedade”. “São leis para limitar os direitos”, observou Javier Blanco, outro militante das CCOO.

A Culpa é do Ódio


Atentado a boate gay em Orlando: terrorismo, religião, preconceito e enriquecimento politicamente favorecido da indústria das armas

O maior atentado terrorista a tiros nos EUA (com pelo menos 50 mortos) tem de tudo: terrorismo (o Estado Islâmico reivindicou o atentado), crenças religiosas fanáticas, preconceito sexual contra os gays e, além de tudo, tratava-se de uma festa de temática latina (festa acima da linha do Equador com temática abaixo dela).

O arcanjo Lúcifer (com certeza) não seria capaz de planejar algo semelhante (e que incluísse, de sobra, o enriquecimento politicamente favorecido das indústrias das armas, uma das que mais “investem” nos políticos, formando “bancadas próprias” – tanto no Brasil como nos EUA).

A maioria da população é adepta da teoria antropológica geral do “sobrevivente” (ver Alba Rico, Penúltimos días, p. 52-57). A teoria – sempre de acordo com esse autor – foi desenvolvida por Elias Canetti. Em regra, diante da dor alheia, nos sentimos (a) indiferentes, ou (b) culpados ou (c) tocados por ela (tudo depende se a dor é de um próximo ou de alguém distante – Aristóteles).

Gramsci ficou estarrecido como as pessoas em geral que não sentiam a dor dos familiares dos armênios massacrados na Turquia. Sua conclusão: a compaixão não é a regra (não ocupamos o lugar do outro, na dor). As exceções é que adotam a “moral de simpatia”, que é a identificação com a dor alheia (Todorov). Simone Weil, por exemplo, morreu de inanição solidarizando-se com a vítimas do nazismo e da 2ª Guerra.

Em regra, somos tomados por uma “cegueira emocional” (não assumimos a dor alheia). O “normal” (diante da tragédia alheia) é nos sentirmos “sobreviventes”. A desgraça aconteceu “com ele ou ela”, não comigo. Logo, “sou um eleito”, um escolhido, um superior; sou de muita sorte, com destino de prosperidade traçado pelas estrelas.

É que “Tenho meus méritos” (por não fazer parte da desgraça), assim como imunidade futura. Rodeia-se e adora ver cadáveres (na TV e outras mídias) para se sentir mais invulnerável (superior). A sobrevivência é um “prazer” (daí o interesse de muitos em ver as desgraças espetacularizadas). O sobrevivente precisa das mortes dramatizadas (para se sentir cada vez mais sobrevivente) como a indústria das armas necessita dos tiros (para se sentir cada vez mais inserido no mercado).

A cada tragédia, o sobrevivente confirma sua hipótese: “Não foi comigo”. O mundo está se destroçando (morrendo aos pedaços) e eu continuo sendo um “sobrevivente”. A bem da verdade, “nada disso acontece por acaso”. Não é uma causalidade minha sobrevivência. Sou especial e distinguido.

Mais de 59 mil pessoas são assassinadas no Brasil por ano (70% com arma de fogo). Mais de 13 mil nos EUA (morrem da mesma maneira). Quase 50 mil mortos no trânsito. O normal seria dizer: “A vítima poderia ser eu”. O sobrevivente diz: “Eu não sou como ele ou ela” (eu sou protegido).

Isto demonstra que o problema da violência não é devido ao porte legal de armas mas ao ódio destilado por líderes partidários e religiosos contra minorias e categorias consideradas “diferentes”.  É difícil imaginar um mundo melhor no futuro pois a humanidade vai ficando cada vez mais cega, iludida e confusa, não se sabe mais discernir a mentira da verdade, está cada vez mais desesperada e não sabe por onde começar para promover mudanças significativas no seu estilo de vida, em suas crenças e convicções.

Somos reféns de um poder midiático enorme, desnonesto e desleal; cúmplice das políticas de desinformação adotadas pelas oligarquias, as quasi por sua vez visam apenas o lucro.
Que Deus nos ajude.

sexta-feira, 10 de junho de 2016

Cientistas criam 'folha biônica' capaz de realizar fotossíntese


Cientistas criam 'folha biônica' capaz de realizar fotossíntese

Há décadas a ciência busca maneiras de reproduzir de forma artificial o complexo sistema que é a fotossíntese das plantas: coletar dióxido de carbono e luz solar para produzir sua própria energia e ainda expelir oxigênio. Até hoje, porém, nenhum método descoberto foi tão eficiente quanto uma nova pesquisa divulgada esta semana pela Universidade de Harvard.

DanielNocera, cientista conhecido por ser um dos pioneiros no ramo de fotossínteses artificiais, publicou no jornal científico Science seu mais novo método para recriar o desenvolvimento sustentável de energia das plantas. Segundo o pesquisador, o novo sistema chega a ser mais eficiente do que o natural.

Na natureza, plantas usam a luz do sol para produzir carboidratos - a fonte da "energia vital" de todos os seres vivos - a partir de dióxido de carbono e água. A fotossíntese artificial usa os mesmos dispositivos - luz solar, água e dióxido de carbono - para produzir combustível líquido de maneira sustentável e sem agredir o meio ambiente.

O sistema criado por Nocera usa um par de catalisadores para separar o oxigênio e o hidrogênio em uma molécula de água (H2O). A partir daí, o hidrogênio, junto com dióxido de carbono, é usado para alimentar uma bactéria modificada geneticamente. Esse microorganismo é o que converte o CO2 e o hidrogênio em combustível líquido.

A grande novidade na pesquisa é sua eficiência. Nocera diz que o sistema usa 10% de energia solar para produzir combustível, enquanto plantas usam apenas 1% da luz do sol para produzir seus carboidratos. Outros cientistas que trabalham em pesquisas semelhantes enalteceram o estudo de Nocera.

"É realmente impressionante. A alta performance desse sistema é incomparável", disse Peidong Yang, pesquisador da Universidade da Califórnia, responsável por desenvolver um método semelhante de fotossíntese artificial, mas com um grau de eficiência bem mais baixo. Já outros estudos ao redor do mundo usam bactérias que consomem dióxido de carbono ou monóxido de carbono, em vez de hidrogênio.

Nocera esclarece que essa eficiência de 10% foi registrada usando CO2 puro, em estado gasoso, mas que seu sistema também pode utilizar o dióxido de carbono encontrado no ar. Nesse caso, a produção de biocombustível consome de 3% a 4% de luz solar, ainda assim mais eficiente do que o que as plantas fazem.

Outra vantagem da fotossíntese artificial é que ela não adiciona à atmosfera outros gases do efeito estufa que contribuem para o aquecimento global. A "folha mecânica" usada pelos cientistas (que você vê na imagem acima), porém, pode levar anos para chegar à indústria. Ainda assim, trata-se de um grande avanço para estudos na área.

quinta-feira, 9 de junho de 2016

A Implosão do Clube da Cleptocracia.


“O risco é o circo pegar fogo” (dizia FHC, em 1996)
Finalmente, pegou. Nogales é nosso espelho.
“O grande debate nacional não é entre esquerda e direita, mas entre o moderno e o arcaico”, dizia o Mário Henrique Simonsen (em 1987). Na sombra do Brasil arcaico forjou-se um potente clube, o da cleptocracia, que é integrado pelas oligarquias/elites políticas e econômicas extrativistas (saqueadoras) e patrimonialistas (confusão entre o público e o privado), que se enriquecem corruptamente ou por meios politicamente favorecidos, sugando o dinheiro público assim como a população.

FHC, em 1996, dizia que “o circo [do Brasil arcaico e da sua cleptocracia] poderia pegar fogo”. O fogo chegou. O circo está em chamas e suas labaredas estão alcançando inclusive a cúpula de ouro do PMDB, contra quem formulou-se o pedido quádruplo de prisão do ex-presidente Sarney, do senador Jucá (presidente do PMDB), do senador Renan (presidente do Senado) e do deputado Eduardo Cunha (presidente da Câmara).
Foyers cleptocráticos: Em março/96, depois da quebra de alguns bancos, incluindo o Econômico, houve intensa movimentação para a instalação de uma CPI. Um flash desse momento foi registrado nos Diários da Presidência, de FHC, e reproduzido por E. Gaspari (Folha): “O Ângelo Calmon de Sá [dono do Econômico] teria dito que na CPI diria tudo o que sabe sobre o PFL [atual DEM] no Nordeste, veja o clima que se está criando. Esta gente está brincando com fogo.” Uma pasta rosa foi descoberta com a contabilidade secreta das doações de bancos a candidatos. O governador de São Paulo, Luiz Antonio Fleury, telefonou para FHC e ele registrou o seguinte: “Haverá os dossiês que existem no Banco Central sobre deputados e senadores, eles vão aparecer, haverá uma lavagem de roupa suja, isso vai pôr fogo no circo”. “O Maluf telefonou para ele [o ministro da Articulação Política, Luiz Carlos Santos] para dizer que, se essa coisa da CPI dos Precatórios for adiante, ele vai botar fogo no circo; vai ver o negócio de financiamento de campanha, que ele sabe como são os financiamentos, que ele não vai morrer sozinho”.
Em pouco mais de dois anos de trabalho, Sérgio Moro e Teori Zavascki destruíram as estruturas do circo que secularmente foi mantido à margem da lei, sob o império do princípio (antirrepublicano) de que a partir de um certo nível de riqueza, patrimônio e renda não se tem a obrigação de prestar contas à Justiça das suas estrepolias. No começo as oligarquias/elites faziam a Justiça (no tempo da Colônia das capitanias hereditárias). Depois passaram a nomear e mandar na Justiça (Império e grande parte da República). O tempo arcaico foi passando até que chegou o dia de se submeter à Justiça.
Foi decretado o fim da mágica que cobria o clube da cleptocracia de impunidade (quase absoluta). Daí o desespero das oligarquias/elites políticas e econômicas, que já falam em “refundação do sistema político-partidário”.
Depois de esfarelar o PT (levando para o cárcere seu ex-presidente e seu tesoureiro), a Lava Jato está chegando na cacicaria dourada do PMDB assim como em Lula, Dilma, Aécio e tantos outros próceres da política nacional, sem data certa para terminar o saneamento. Como disse Sérgio Machado e Renan (nos famosos áudios vazados), é possível que não sobre “pedra sobre pedra”. À instabilidade econômica agregou-se a instabilidade política emanada da Lava Jato. Um impeachment já aconteceu e ninguém sabe o que vai acontecer com o governo do PMDB.
Todas as previsões e fantasias da incrédula população brasileira bem como das corruptas oligarquias/elites políticas e econômicas, extrativistas e patrimonialistas, falharam. Imaginava-se que nunca uma investigação no Brasil chegasse aos donos do poder e chegou. Acreditou-se que nunca eles iriam para a cadeia e foram. Que nunca se chegaria à Odebrecht e chegou. Que jamais seriam presos os dirigentes máximos do clube da cleptocracia e foram. Que nunca fossem delatar os demais membros do clube e estão delatando. As forças cleptocráticas cederam compulsoriamente espaço. É por esse caminho que se pode construir um novo Brasil.
O jogo de titãs está sendo vencido pela Justiça (o Estado é condensação de forças – Jaime Osorio). Como disse E. Gaspari (Folha), “a teoria do circo pegando fogo é recorrente nas conversas grampeadas por Machado. Essa circunstância (o grampo) deveria inibir os movimentos dos poderosos da nova ordem. A colheita no vinhedo petista continua, mas agora a Lava-Jato chegou às velhas videiras francesas”.
Por que se formou no Brasil arcaico, às sombras do Estado, o clube da cleptocracia, que suga a riqueza da nação corruptamente ou por meios politicamente favorecidos, em favor de poucos (oligarquias/elites)? Porque nossas instituições são frágeis. Quatro são as instituições nucleares que determinam a prosperidade ou o fracasso dos países: (a) políticas (Estado/democracia), (b) econômicas (modelo de economia), (c) sociais (sociedade civil/incivil) e (c) jurídicas (respeito aos contratos e império da lei, que inclui o devido processo legal e proporcional) (Ferguson, La gran degeneración, p. 23 e ss.; Acemoglu/Robinson, Por que as nações fracassam).
Onde todas essas instituições funcionam bem (países com raízes históricas democráticas, fundados na efetiva dignidade da pessoa humana), as leis se inclinam para a sensatez e para a igualdade (equidade). Onde fracassam (países com origens colonialistas, extrativistas e patrimonialistas), as leis (e a riqueza) acabam sendo dominadas (muitas vezes) pelas castas dirigentes, em seu benefício.
O exemplo de Nogales
Duas são as cidades chamadas Nogales (Nogueiras). Elas são divididas apenas por uma cerca. Uma pertence aos EUA e outra pertence ao México. Se se trata da mesma cidade, por que a parte norte, que fica no Arizona (EUA), é rica, enquanto a parte sul, que fica no México, é pobre? Por que a renda familiar média do norte é de mais de US$ 30 mil anuais, enquanto no sul não passa de US$ 10 mil? Por que no norte a grande maioria dos adolescentes estuda e a maioria dos adultos concluiu o ensino médio, enquanto no sul dá-se exatamente o contrário? Por que os habitantes do norte vivem mais que os do sul? Por que a criminalidade é bem menor no norte que no sul? Por que o regime democrático do norte é muito mais eficiente que o do sul? Por que a corrupção no norte é muito menor que no sul?
Inexistem diferenças geográficas, climáticas ou entre os tipos de doenças (os micróbios não estão impedidos de cruzar a fronteira); tampouco na capacidade das pessoas (uns netos de europeus, outros descendentes dos astecas); aliás, eles contam com a mesma cultura e ancestrais comuns. Onde está a diferença? Dentre outros fatores, na herança histórica de cada país (Acemoglu/Robinson, Por que as nações fracassam, p. 6 e ss.).
Por que os EUA e o Reino Unido se enriqueceram (este sobretudo nos séculos XIX e XX, com a Revolução Industrial) e a América Latina, por exemplo, nunca deixou de ser marcadamente pobre, ignorante, corrupta e violenta? Por que tanta diferença entre EUA e México (que é muito parecido com o Brasil em termos históricos, já que ambos foram conquistados pelos povos ibéricos)?
Sem prejuízo das críticas que podem ser feitas aos dois países prósperos citados (especialmente no que concerne às brutais desigualdades que ainda ostentam, particularmente os EUA), não há como negar (como demonstram Acemoglu/Robinson, Por que as nações fracassam, p. 3), que esse sucesso aconteceu “porque seus cidadãos [um dia] derrubaram as elites que controlavam o poder e criaram uma sociedade em que os direitos políticos eram distribuídos de maneira muito mais ampla, na qual o governo era responsável e tinha de responder aos cidadãos e onde a grande massa da população tinha condições de tirar vantagens das oportunidades econômicas”.
Acemoglu e Robinson (Por que as nações fracassam) afirmam que para se compreender porque há tanta desigualdade no mundo assim como entre os países temos que mergulhar no passado e estudar a dinâmica histórica de cada uma das sociedades. Alguns países contam com herança institucional bendita, enquanto outros, com herança institucional maldita (caso do Brasil e do México), onde funcionam muito mal as quatro instituições citadas, porque o predomínio passa a ser do extrativismo selvagem, que está na origem na sistêmica corrução.

Professor
Jurista e professor. Fundador da Rede de Ensino LFG. Diretor-presidente do Instituto Avante Brasil. Foi Promotor de Justiça (1980 a 1983), Juiz de Direito (1983 a 1998) e Advogado (1999 a 2001). [ assessoria de comunicação e imprensa +55 11 991697674 [agenda de palestras e entrevistas]

Juizes e Promotores Fora da Lei Usam a Lei Para Intimidar

Jornalistas que divulgaram salários de magistrados são alvos de ações

Profissionais da Gazeta do Povo foram processados 37 vezes. 
Magistrados e promotores receberam acima do teto constitucional em 2015.
Associações que representam jornais e o Sindicato dos Jornalistas do Paraná criticaram nesta terça-feira (7) a reação de magistrados e promotores que entraram com dezenas de ações contra profissionais do jornal Gazeta do Povo. As ações foram propostas depois que o jornal publicou uma série de reportagens que mostravam os salários acima do teto constitucional pagos pelo Tribunal de Justiça (TJ) e pelo Ministério Público do Paraná (MP).

As reportagens que motivaram as ações judiciais foram publicadas pela Gazeta do Povo em fevereiro e analisaram dados encontrados nos portais da transparência do MP e do TJ.
Por conta das reportagens, três repórteres, um analista de sistemas e o responsável pelo visual gráfico das matérias viraram réus em 36 ações em juizados especiais, e também uma ação na Justiça comum – todas elas movidas por juízes e promotores que se dizem ofendidos com o que foi publicado.
Nas ações nos juizados especiais, os profissionais do jornal são obrigados por lei a comparecer às audiências. Eles já estiveram em 19 delas nos últimos dois meses, percorrendo para tanto 6,3 mil quilômetros.
A direção da Gazeta do Povo disse que reafirma respeito pelo Poder Judiciário e pelo Ministério Público, e que lamenta que dois promotores e um grupo e magistrados tenham optado por uma ação orquestrada que representa um gravíssimo atentado à liberdade de imprensa.
"Esse grupo de magistrados, na prática, o que eles estão cometendo é um atentado grave à liberdade de expressão, à liberdade de imprensa, à liberdade de informar ao público aquilo que é de interesse público", afirmou o diretor de redação do jornal, Leonardo Mendes Júnior.
A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) afirmou que repudia a retaliação de magistrados e promotores do Paraná ao jornal Gazeta do Povo e seus profissionais.
A Associação Nacional de Jornais (ANJ) disse que a iniciativa conjunta, em diferentes locais do Paraná, tem o claro objetivo de intimidar, retaliar e constranger o livre exercício do jornalismo.
O Sindicato dos Jornalistas do Paraná também condenou as dezenas de ações em juizados especiais. "A gente não pode deixar que uma afronta ao direito constitucional da sociedade de ter livre informação seja atacado dessa maneira", disse o presidente do Sindijor, Gustavo Vidal.
Outro lado
As associações que representam magistrados e promotores defenderam as ações nos juizados especiais.
A Associação dos Magistrados do Paraná (Amapar) afirma que a intenção das ações individuais não é de modo algum inviabilizar o trabalho dos jornalistas, e que, de acordo com as regras processuais vigentes, a parte que entende ter sido lesada em seu direito pode ajuizar a ação no local em que reside. A Amapar informou ainda que apenas 2% dos associados entraram com ações.
A Associação Paranaense do Ministério Público disse que o exercício do direito de ação é assegurado a todos os cidadãos de nosso país, e que as ações desse caso não representam, em hipótese alguma, tentativa de ferir o direito de informação, nem buscam atacar a liberdade de imprensa.
Fonte: Do G1 PR, com informações da RPC

quarta-feira, 8 de junho de 2016

A Face Americana do Golpe


UM PORTA-VOZ DO DEPARTAMENTO DE ESTADO dos EUA se recusou repetidas vezes a comentar sobre a crise política que está no auge no Brasil, durante a coletiva de imprensa diária de sexta-feira – em um contraste quase risível com suas longas e eloquentes críticas à vizinha Venezuela.
Quando questionado sobre o forte contraste, cada vez mais exasperado, o porta-voz do departamento, Mark Toner, respondeu: “Eu apenas – novamente, eu não tenho nada a comentar sobre as presentes dimensões políticas da crise que ocorre lá. Eu não tenho.

O Departamento de Estado norteamericano está, há muito tempo, inclinado a criticar o governo de esquerda da Venezuela, que seguiu políticas antagônicas acorporações internacionais. Em contraste, o órgão permanece silencioso sobre a tomada do poder no Brasil por um governo de direita e pró-corporações, que está fazendo da privatização de empresas estatais uma prioridade.
O bate-boca na sexta-feira começou quando The Intercept perguntou a Toner por que os EUA têm tomado partenas críticas à recaída democrática da Venezuela, mas ignorou a crise política no Brasil, onde legisladores de direita votaram, no dia12 de maio, pela suspensão do governo eleito e pela abertura do processo de impeachment contra a presidente Dilma Rousseff.
“Eu não estou ciente das alegações que você fez. …Nós acreditamos que [o Brasil] seja uma democracia forte”, respondeu Toner.
“Democracias fortes permitem que as forças armadas pratiquem espionagem contra oponentes políticos?”, respondemos, apontando para notícias recentes de que a nova administração está monitorando o antigo governo. Quando Toner desviou novamente, dizendo “não ter detalhes” sobre a vigilância, Matt Lee, repórter veterano da Associated Press, entrou na discussão, perguntando se o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff era sequer “válido”.
Toner continuou a se desviar, reafirmando a confiança dos EUA nas instituições brasileiras.
Porém, assim que Pam Dawkins, do jornal Voice of America, perguntou sobre a Venezuela e “o estado da democracia ali”, em meio ao adiamento de um referendo proposto para decidir sobre a saída ou permanência do atual presidente, proposto pela oposição no país, o tom de Toner mudou drasticamente.
Em uma resposta que se estendeu por dois minutos, Toner se posicionou de forma totalmente moralista, pedindo que a Venezuela respeite normas democráticas. “Nós fazemos um apelo às autoridades da Venezuela para que permitam que esse processo [de proposta do referendo] seja movido de forma rápida, e encorajamos as instituições apropriadas a assegurarem que os venezuelanos possam exercer seu direito de participar desse processo em acordo com as práticas e instituições democráticas da Venezuela e princípios compatíveis com a Carta Democrática Interamericana”.
Lee se viu obrigado a notar o contraste. “Você acabou de – essas são duas respostas muito longas, críticas, sobre a situação na Venezuela”, disse ele. “E, mesmo assim, o Brasil, que é um país bem maior e com – um país com o qual você manteve melhores relações, tem o que, duas frases?”
“Eu apenas – novamente, eu não tenho nada a comentar sobre as presentes dimensões políticas da crise que ocorre lá. Eu não tenho”.
“Mas vocês têm muito a dizer sobre a situação política na Venezuela”.
“Temos”, Toner respondeu.
“Por que isso?” Lee retrucou.
“Bom, nós apenas – nós estamos muito preocupados com a atual…” começou Toner, antes de ser interrompido por Lee mais uma vez.
“Por que vocês não estão muito preocupados com o Brasil?”, provocou Lee.
“Novamente – veja bem, eu já falei a minha parte. Quer dizer, não tenho nada a acrescentar”.
“Mesmo? Tudo bem”.
Outro repórter entrou na discussão, perguntando a Toner se a composição do novo gabinete de governo do Brasil – formado exclusivamente por homens, muitos ligados a grandes empresas no país, e que toma o lugar do gabinete liderado pela primeira líder feminina na história do país – era motivo de alguma preocupação.
“Olha, gente, eu vou checar se temos algo mais a dizer sobre a situação no Brasil”, concluiu Toner.
Rousseff e seus apoiadores chamam o impeachment de “golpe”, e múltiplos observadores internacionais questionam a legitimidade do processo, incluindo o secretário geral da Organização dos Estados Americanos (OAS), Luis Almagro, e The Economist.
Enquanto a pressão popular aumenta contra o recém-surgido governo interino de Temer, marcado por escândalos, uma votação final sobre o processo de impeachment deve ocorrer até o próximo mês.
Relacionadas:
Traduzido por: Beatrix Felix
English version

terça-feira, 7 de junho de 2016

A Sociedade Brasileira Matou Italo


Penso que todos leram a notícia que um policial militar matou uma criança de 10 anos suspeita de furtar carro em suposto confronto em SP.
Já é difícil imaginar uma criança de 10 anos dirigindo um carro, mais difícil ainda é imaginar uma criança de 10 anos dirigindo um carro e trocando tiros com a polícia... O fato é que, no país dos autos de resistência forjados, duvidar da Polícia é necessário. Como já dizia um ex-secretário de segurança do Rio de Janeiro:
Isso de forjar auto de resistência é algo muito antigo, é feito há pelo menos 20 anos. São três situações: o confronto legal, o confronto ilegal, isto é, quando seria evitável, e a execução sumária.
Enfim. Quem era a criança morta? Como ela vivia? Como era seu presente e perspectiva de futuro? Antes de adentrar nestas questões, um conselho importante que deve preceder debates desse tipo:
Quando eu era mais jovem e mais vulnerável, meu pai me deu um conselho que muitas vezes volta à minha mente: Sempre que tiver vontade de criticar alguém – recomendou-me –, lembre primeiro que nem todas as pessoas do mundo tiveram as vantagens que você teve
( FITZGERALD, Scott. O Grande Gatsby)
Pois bem, o fato é que criança nenhuma nasce sabendo pegar em arma ou nasce "com desejo de sangue". Estas coisas começam a entrar na vida da criança aos poucos, no dia a dia... A criança escolhe? Bem, dizia Karl Marx no livro 18 Brumário de Louis Bonaparte que
Os homens fazem a sua própria história, mas não a fazem segundo a sua livre vontade; não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado. A tradição de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos.
A questão é que criança nenhuma, que se encontra em estado de delinquência, pediu para vir ao mundo e pediu para vir ao mundo na família que veio. E diante desta afirmação você descobre que o Ítalo, a criança de 10 anos morta pela PM de São Paulo, nunca teve chance de ter uma vida boa. Segundo o Jornal Folha de São Paulo, "sem lar, criança morta em perseguição da polícia já dormiu até em van".
Uma tristeza só!
Os moradores da favela do Piolho se acostumaram a ver o garoto descalço, sujo e com fome. Ele e a família enfrentaram dois incêndios que destruíram parte da comunidade nos últimos anos.
E se olharmos o histórico de vida dos pais...
PRISÕES DOS PAIS
Cintia Ferreira Francelino (mãe do menino morto)> nov.2006: tentativa de furto
Out.2007: tentativa de furto
Dez.2007: roubo
Set.2011: furto
Fernando Siqueira (pai do menino morto)
Ago.2009: tráfico de entorpecente
Jan.2013: tráfico de entorpecente e corrupção ativa
Eram estas as referências do menino. Diziam os mais velhos que "não nasce fruto bom em árvore ruim...".
Mas, e de quem é a culpa? Só dos pais? Não! A Constituição Federal de 88 diz, em seu artigo 227, que
É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança, ao adolescente e ao jovem, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão.
Nos mesmos termos o artigo 4º do ECA:
É dever da família, da comunidade, da sociedade em geral e do poder público assegurar, com absoluta prioridade, a efetivação dos direitos referentes à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária.
Os culpados somos todos nós que legitimamos uma sociedade desigual e degradante. Somos uma sociedade que marginaliza as pessoas e, depois, as chamamos de marginais. O fato é que ninguém é marginal, mas marginalizado - pois é a sociedade quem, por suas práticas de segregação, empurra muitos para a margem...
O que esperar de uma criança que vive numa sociedade onde pessoas se acostumaram a ver uma criança de 10 anos descalça, suja e com fome?! Uma sociedade, que se diz cristã, se acostumar com o fato de criança andar descalça, suja e com fome é contradizer a ordem bíblica de que não deveríamos nos conformar com este mundo, mas transforma-lo... Como é que se acostuma com isto?!
Complicado esperar que uma criança que tenha o lar que o Ítalo tinha possa agir conforme a sociedade quer. Já dizia o Gabriel, o pensador, que"aquilo que o mundo me pede, não é o que o mundo me dá".
E devemos nos atentar para o fato de que os cuidados para com a saúde do lar devem ser redobrados, principalmente se se pensar que as violências praticadas no lar tendem a servir de paradigmas para outras violências a serem praticadas no meio social.
O lar deve ser harmonioso, mas, na falta deste, a sociedade também deve proporcionar meios de cuidar destas crianças.
E sobre matar uma criança de 10 anos com um tiro na cabeça, eu acho que 10 anos é pouca idade para desistir de alguém. Há inúmeros exemplos de crianças infratoras que se transformaram - ex-menor infrator ganha prêmio científico por corrigir acidez do solo - mas aí é preciso muita seriedade e boa vontade do poder público e da sociedade para considerar que todos devem assegurar, com absoluta prioridade, a efetivação dos direitos referentes à vida das crianças. Mas nossos interesses parecem ser outros...
Um policial militar de São Paulo matou uma criança de 10 anos com um tiro na cabeça: mas ele não apertou o gatilho sozinho!