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segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Facebook - A Nossa Distração


Quando acreditando falar com os outros falamos só com nós mesmos

Em um momento em que tudo está globalizado, incluindo o desespero dos migrantes que falam através de seus corpos, da sua intromissão física alarmante, o rei da maior revolução imaterial e antissocial, Mark Zuckerberg, está comemorando com um bilhão de pessoas conectadas em um só dia, o ruído de fundo que nos rodeia (nos aquece, nos ilude) e que chamamos de comunicação interativa, equivocando seu silêncio passivo substancial.
Porque acreditando de falar com os outros, estamos na verdade falando a nós mesmos. Em uma regressão infantil coletiva, como naqueles jogos que jogávamos sozinhos, mas fazendo as vozes de todos os personagens do jogo.

Facebook é um jardim de infância planetário. Dentro do qual os ricos do planeta - os que no momento não estão morrendo de fome ou de sede sem auxílios, não se afogam em um barco, aqueles não estão sendo massacrados na carnificina de alguma guerra santa suja - não têm absolutamente nada a dizer, mas o dizem  pelo menos uma dúzia de vezes por dia.


Eles o fazem postando em suas páginas o prato de batatinhas que vão comer,  a bebida colorida na frente deles, o lindo pôr do sol em tela cheia e o detalhe da espinha que espremeram. Eles escrevem relatórios não solicitados sobre as férias horríveis que fizeram  e sobre dietas  que ainda precisam ser concluídas. Falam de amores que acabaram mal, de um filme que você deve absolutamente assistir,  sobre um restaurante vegano que deve ser evitado e sobre um vídeo onde um cara em algum lugar nos USA extermina a família toda e agora, finalmente, vai cometer suicídio.

A forma que no Facebook se torna substância ilude quem digita uma  mensagem que ele esteja realmente comunicando algo a alguém, mas quase nunca é verdade.
Na maioria das vezes está apenas contando milímetro por milímetro sua própria solidão.
Eles estão usando os outros como um pretexto. Estão simplesmente dizendo ao espelho: "Eu estou aqui". E dizendo isso dez vezes por dia eles querem primeiramente se convencer que realmente existem, pelo menos no espelho, graças a essa corrente digital que os envolve na luz. Depois, para encontrar coragem para fazer a pergunta crucial: "Tem alguém ouvindo?"

Pergunta que quase nunca tem uma resposta real, mesmo quando chegam cem ou mil. Porque se as pessoas dizem uma coisa na rede o diz a si mesma, o mesmo acontece com quem responde, quase sempre falando de outra coisa, apenas para escolher um ponto de partida para dar início a outro discurso em uma nova direção, a sua.

Antigamente me impressionavam os viajantes de trens e metrôs que nunca levantavam os olhos para o vizinho de banco, mas focavam toda a sua atenção nos telefones celulares e computadores que ofereciam imagens, sons e companheirismo. Eles estavam espalhados aqui e ali em vagões, no meio deles algum jovem inexplicavelmente ainda lia um livro de papel e uns poucos falavam com a pessoa de carne e osso ao lado deles. Hoje a paisagem é uniforme, os jovens com livros desapareceram, todos estão conectados entre si, se veem apenas cabeças reclinadas na sequência de flashes da tela do smartphone, ninguém se atreve a olhar para os lados.

O mesmo acontece cada vez mais nos restaurantes, nos semáforos, onde casais ou amigos navegam por  conta própria, juntos só na forma, mas em substância separados. Todos em um mundo distante, o seu próprio.

Mas a imaterialidade que nos rodeia não é e não será sem consequências. Ela está nos tornando mais e mais frágeis - mais imbecis e especialmente mais perplexos - como são os turistas de viagens organizadas ou de cruzeiros  que acreditam viajar pelo mundo mas não deixam seus simulacros, protegidos pelo ar condicionado, lavados e alimentados, protegidos contra qualquer interferência da vida real, ainda que só pelo calor e os insetos.

O nosso cruzeiro pelo mundo que não existe vai acabar mais cedo ou mais tarde naufragando nas rochas do mundo real. A crise econômica e os headhunters não vão desaparecer com um clique. E se nesse dia – enquanto estivermos postando uma receita ou um insulto no Facebook – o mundo cair sobre nós, teremos que enfrentá-lo com os olhos abertos novamente e o computador, o smartphone ou o tablet desligados.
Se ainda formos capazes
Il Fatto Quotidiano de 30 ago 2015